Amor que acolhe e salva vidas
- luandaeditores
- 26 de jun.
- 6 min de leitura
Há décadas, o personal trainer Sérgio Valentino transforma compaixão em ação, resgatando e acolhendo animais abandonados nas ruas de São Paulo.

Texto: Joelma Farias
Imagens: Arquivo Pessoal/Sérgio Valentino
Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abinpet), o Brasil possui mais de 160 milhões de pets e ocupa o terceiro lugar no ranking mundial. Apesar disso, cerca de 4,8 milhões de cães e gatos vivem em situação de vulnerabilidade extrema nas ruas, de acordo com o Instituto Pet Brasil.
Embora o abandono seja crime previsto em lei pelo Artigo 32 da Lei Federal nº 9.605/98 — com pena de detenção e multa —, a prática ainda persiste. As ONGs acolhem apenas uma pequena parcela desses animais, o que evidencia a gravidade do problema e a sobrecarga enfrentada por instituições e protetores independentes.
Diante desse cenário desafiador, destacam-se iniciativas movidas pela dedicação individual. É o caso do personal trainer Sergio Valentino, que transformou o amor cultivado pelos animais desde a infância em missão de vida. Há anos, ele dedica seu tempo ao resgate, tratamento e acolhimento de animais vítimas de abandono e maus-tratos, oferecendo a eles uma nova chance de viver com segurança, cuidado e dignidade.
“Minha jornada começou antes mesmo de eu entender a proporção que isso tomaria. Eu tinha quase 7 anos quando encontrei um filhote caramelo a caminho da escola. Coloquei ela na mochila, ela assistiu à aula toda escondida e foi direto para a minha casa. Ela viveu comigo até os meus 15 anos. Esse foi o primeiro e o grande gatilho. Depois de viver o amor e a gratidão de um animal resgatado tão cedo, é impossível parar. Desde aquele dia na escola, a proteção virou parte de quem eu sou”, relembra Sérgio.
Hoje, aos 37 anos, ele afirma que a proteção animal é o fio condutor da sua vida. Sua casa sempre esteve aberta para animais resgatados, e parte significativa de sua renda é destinada aos cuidados deles.
Tripla jornada e o custo elevado da proteção
A motivação para continuar enfrentando desafios diários vem do sofrimento que presencia nas ruas. Para ele, a invisibilidade dos animais abandonados é uma das situações mais dolorosas que existem. No entanto, sua missão tem um custo alto. Todos os meses, cerca de 20% da sua renda é destinada diretamente às despesas com os animais.
“Sim, tiro do meu próprio bolso todos os meses. Parte do que ganho vai direto para o sustento e os cuidados deles. É uma batalha mental diária e silenciosa. A ração vai acabando, aparecem animais precisando de veterinário de urgência e o dinheiro falta. Mas a gente aperta de um lado para salvar do outro.”
Para seguir na sua missão, Sérgio divide o dia entre duas profissões. Pela manhã, atua como professor em academia; à tarde, dedica-se integralmente aos animais; e, à noite, trabalha como personal trainer.
“Minha rotina é calculada minuto a minuto. Assim que termino de dar aulas, volto correndo para casa. É cansativo, mas é o preço que pago com gosto para garantir que eles fiquem bem.”
A realidade sem filtros dos protetores independentes

Entre os desafios enfrentados pelos protetores independentes está a falta de conhecimento da população sobre a realidade do trabalho realizado diariamente. Muitas pessoas acreditam que esses voluntários recebem apoio financeiro.
No entanto, a realidade é bem diferente. Sérgio revela que a maior parte dos protetores atua sem qualquer tipo de auxílio externo, arcando sozinhos com despesas relacionadas à alimentação, medicamentos, tratamentos veterinários e manutenção dos animais acolhidos. A rotina também não deixa espaço para descanso. A missão começa logo no início do dia durante o próprio trajeto para o trabalho.
“Descansar? Muito pouco. A verdade que poucos veem é que a vida social praticamente acaba. Viajar, por exemplo, é algo que está fora da minha realidade. Um simples bate e volta na praia é impensável quando se tem 13 cachorros e 2 gatos em casa dependendo de você para comer, beber e receber cuidados. Eles são a minha prioridade absoluta.”
Atualmente, 15 animais vivem sob seus cuidados permanentes: 13 cães e dois gatos. Para o protetor, a quantidade já ultrapassou o limite inicialmente planejado.
“O meu planejamento inicial era ter no máximo oito animais para conseguir dar um conforto ideal. Mas a realidade do abandono nos atropela, e hoje estou com 15 animais em casa. Felizmente, conto com um quintal de 500 metros quadrados, o que me permite dar uma excelente qualidade de vida para todos eles.”

Critérios de resgate e a psicologia do trauma
Diante de uma demanda praticamente infinita, a seleção para os resgates segue critérios rigorosos. Sérgio prioriza retirar das ruas animais feridos ou bastante debilitados, que não têm condições de sobreviver sozinhos. Além dos custos financeiros, o tempo é um dos maiores obstáculos.
“As pessoas costumam pensar apenas no espaço físico, mas os animais precisam de contato humano, atenção, carinho e alguém presente para educar e corrigir comportamentos. Como divido meu dia com minhas aulas, o tempo que me sobra para dar essa atenção individual é curto.”
Apesar dos riscos envolvidos durante um resgate, Sérgio revela que o maior desafio não é a ação humana, mas sim o estado emocional dos próprios animais. Tirar um bicho da rua é um processo delicado que exige compreender o medo de um ser que não sofre apenas com a fome ou ferimentos físicos, mas também com o desgaste psicológico dos traumas vividos.
Ciclos de cura: das lágrimas ao desapego
Diante de tanta tensão, Sérgio reconhece que o desgaste emocional é inevitável para quem se dedica a essa missão. Ainda assim, ele revela encontrar forças justamente nos animais que salva diariamente. “Já passei por muitos momentos difíceis, de desabar e chorar sozinho no quintal, e foram eles que se aproximaram e lamberam as minhas lágrimas. Eu cuido deles, mas eles também cuidam de mim.”
Entre as histórias mais marcantes está a de uma cadela encontrada em estado gravíssimo após um ataque. Após 110 pontos e meses de recuperação, ela sobreviveu e permanece sob seus cuidados.
Quando os animais se recuperam e encontram uma família, surge outro desafio: o desapego. “É extremamente difícil desapegar. Mas a gente precisa entender que ele precisa ir. Quando aquele animal encontra uma família de verdade, o ciclo dele comigo se cumpre. Eu preciso deixar ele ir para que a vaga seja preenchida por outro que ainda está sofrendo nas ruas.”
Omissão estrutural e um apelo à humanidade
Para o protetor, o abandono de animais no Brasil está diretamente ligado à guarda irresponsável, marcada pela falta de conscientização de alguns responsáveis pelos animais e pela baixa efetividade da fiscalização.
“Muitas pessoas ainda veem o animal como um objeto descartável. A Lei Sansão existe, mas a fiscalização é falha e os casos de punição efetiva ainda são raros.”
Ao final da entrevista, ele deixa uma mensagem contundente para quem abandona ou ignora animais em situação de sofrimento. “O abandono é a assinatura da covardia. Ao dar as costas para um animal sofrendo na rua, você não está apenas deixando um ser indefeso para trás; está deixando ali a sua própria humanidade. Animais não sabem o que é maldade, mas sentem a dor, a fome e o medo exatamente como nós. A diferença é que eles não podem pedir ajuda.”
Que existam mais "Sérgios" no mundo e, acima de tudo, mais conscientização sobre os cuidados com os animais. Que a posse responsável se torne uma prática cada vez mais presente, guiada pelo respeito, pelo compromisso e pelo amor. Afinal, nossos companheiros de quatro patas nos oferecem carinho incondicional todos os dias e merecem receber o mesmo em troca.
Quem quiser acompanhar e contribuir com o trabalho de Sérgio Valentino pode encontrá-lo pelo Instagram no perfil @aumigosdosergio. Segundo ele, "as necessidades mais urgentes são ração, vermífugos e antipulgas, essenciais para a saúde e o bem-estar dos animais resgatados".
Toda contribuição faz a diferença. Colabore da forma que puder e ajude a oferecer uma vida mais digna a esses amáveis peludinhos.




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