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Amor que acolhe e salva vidas

Há décadas, o personal trainer Sérgio Valentino transforma compaixão em ação, resgatando e acolhendo animais abandonados nas ruas de São Paulo.


Sérgio Valentino posa ao lado de parte dos animais resgatados, que hoje vivem sob seus cuidados.
Sérgio Valentino posa ao lado de parte dos animais resgatados, que hoje vivem sob seus cuidados.

Texto: Joelma Farias

Imagens: Arquivo Pessoal/Sérgio Valentino


Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abinpet), o Brasil possui mais de 160 milhões de pets e ocupa o terceiro lugar no ranking mundial. Apesar disso, cerca de 4,8 milhões de cães e gatos vivem em situação de vulnerabilidade extrema nas ruas, de acordo com o Instituto Pet Brasil.


Embora o abandono seja crime previsto em lei pelo Artigo 32 da Lei Federal nº 9.605/98 — com pena de detenção e multa —, a prática ainda persiste. As ONGs acolhem apenas uma pequena parcela desses animais, o que evidencia a gravidade do problema e a sobrecarga enfrentada por instituições e protetores independentes.


Diante desse cenário desafiador, destacam-se iniciativas movidas pela dedicação individual. É o caso do personal trainer Sergio Valentino, que transformou o amor cultivado pelos animais desde a infância em missão de vida. Há anos, ele dedica seu tempo ao resgate, tratamento e acolhimento de animais vítimas de abandono e maus-tratos, oferecendo a eles uma nova chance de viver com segurança, cuidado e dignidade.


“Minha jornada começou antes mesmo de eu entender a proporção que isso tomaria. Eu tinha quase 7 anos quando encontrei um filhote caramelo a caminho da escola. Coloquei ela na mochila, ela assistiu à aula toda escondida e foi direto para a minha casa. Ela viveu comigo até os meus 15 anos. Esse foi o primeiro e o grande gatilho. Depois de viver o amor e a gratidão de um animal resgatado tão cedo, é impossível parar. Desde aquele dia na escola, a proteção virou parte de quem eu sou”, relembra Sérgio.


Hoje, aos 37 anos, ele afirma que a proteção animal é o fio condutor da sua vida. Sua casa sempre esteve aberta para animais resgatados, e parte significativa de sua renda é destinada aos cuidados deles.


Tripla jornada e o custo elevado da proteção

A motivação para continuar enfrentando desafios diários vem do sofrimento que presencia nas ruas. Para ele, a invisibilidade dos animais abandonados é uma das situações mais dolorosas que existem. No entanto, sua missão tem um custo alto. Todos os meses, cerca de 20% da sua renda é destinada diretamente às despesas com os animais.


“Sim, tiro do meu próprio bolso todos os meses. Parte do que ganho vai direto para o sustento e os cuidados deles. É uma batalha mental diária e silenciosa. A ração vai acabando, aparecem animais precisando de veterinário de urgência e o dinheiro falta. Mas a gente aperta de um lado para salvar do outro.”


Para seguir na sua missão, Sérgio divide o dia entre duas profissões. Pela manhã, atua como professor em academia; à tarde, dedica-se integralmente aos animais; e, à noite, trabalha como personal trainer.


“Minha rotina é calculada minuto a minuto. Assim que termino de dar aulas, volto correndo para casa. É cansativo, mas é o preço que pago com gosto para garantir que eles fiquem bem.”


A realidade sem filtros dos protetores independentes


Pets resgatados brincam no quintal da casa de Sérgio. O espaço amplo oferece liberdade para os animais, mas a estrutura ainda precisa de melhorias para garantir mais conforto e segurança. Foto: Arquivo pessoal
Pets resgatados brincam no quintal da casa de Sérgio. O espaço amplo oferece liberdade para os animais, mas a estrutura ainda precisa de melhorias para garantir mais conforto e segurança. Foto: Arquivo pessoal

Entre os desafios enfrentados pelos protetores independentes está a falta de conhecimento da população sobre a realidade do trabalho realizado diariamente. Muitas pessoas acreditam que esses voluntários recebem apoio financeiro.


No entanto, a realidade é bem diferente. Sérgio revela que a maior parte dos protetores atua sem qualquer tipo de auxílio externo, arcando sozinhos com despesas relacionadas à alimentação, medicamentos, tratamentos veterinários e manutenção dos animais acolhidos. A rotina também não deixa espaço para descanso. A missão começa logo no início do dia durante o próprio trajeto para o trabalho. 


“Descansar? Muito pouco. A verdade que poucos veem é que a vida social praticamente acaba. Viajar, por exemplo, é algo que está fora da minha realidade. Um simples bate e volta na praia é impensável quando se tem 13 cachorros e 2 gatos em casa dependendo de você para comer, beber e receber cuidados. Eles são a minha prioridade absoluta.”

Atualmente, 15 animais vivem sob seus cuidados permanentes: 13 cães e dois gatos. Para o protetor, a quantidade já ultrapassou o limite inicialmente planejado.


“O meu planejamento inicial era ter no máximo oito animais para conseguir dar um conforto ideal. Mas a realidade do abandono nos atropela, e hoje estou com 15 animais em casa. Felizmente, conto com um quintal de 500 metros quadrados, o que me permite dar uma excelente qualidade de vida para todos eles.”


Animais resgatados, muitas vezes marcados por traumas e maus-tratos, exigem uma abordagem cuidadosa durante o resgate para garantir a segurança tanto deles quanto das pessoas envolvidas. Foto: Arquivo pessoal.
Animais resgatados, muitas vezes marcados por traumas e maus-tratos, exigem uma abordagem cuidadosa durante o resgate para garantir a segurança tanto deles quanto das pessoas envolvidas. Foto: Arquivo pessoal.

Critérios de resgate e a psicologia do trauma

Diante de uma demanda praticamente infinita, a seleção para os resgates segue critérios rigorosos. Sérgio prioriza retirar das ruas animais feridos ou bastante debilitados, que não têm condições de sobreviver sozinhos. Além dos custos financeiros, o tempo é um dos maiores obstáculos.


“As pessoas costumam pensar apenas no espaço físico, mas os animais precisam de contato humano, atenção, carinho e alguém presente para educar e corrigir comportamentos. Como divido meu dia com minhas aulas, o tempo que me sobra para dar essa atenção individual é curto.”


Apesar dos riscos envolvidos durante um resgate, Sérgio revela que o maior desafio não é a ação humana, mas sim o estado emocional dos próprios animais. Tirar um bicho da rua é um processo delicado que exige compreender o medo de um ser que não sofre apenas com a fome ou ferimentos físicos, mas também com o desgaste psicológico dos traumas vividos.


Ciclos de cura: das lágrimas ao desapego

Diante de tanta tensão, Sérgio reconhece que o desgaste emocional é inevitável para quem se dedica a essa missão. Ainda assim, ele revela encontrar forças justamente nos animais que salva diariamente. “Já passei por muitos momentos difíceis, de desabar e chorar sozinho no quintal, e foram eles que se aproximaram e lamberam as minhas lágrimas. Eu cuido deles, mas eles também cuidam de mim.”


Entre as histórias mais marcantes está a de uma cadela encontrada em estado gravíssimo após um ataque. Após 110 pontos e meses de recuperação, ela sobreviveu e permanece sob seus cuidados. 


Quando os animais se recuperam e encontram uma família, surge outro desafio: o desapego. “É extremamente difícil desapegar. Mas a gente precisa entender que ele precisa ir. Quando aquele animal encontra uma família de verdade, o ciclo dele comigo se cumpre. Eu preciso deixar ele ir para que a vaga seja preenchida por outro que ainda está sofrendo nas ruas.”


Omissão estrutural e um apelo à humanidade

Para o protetor, o abandono de animais no Brasil está diretamente ligado à guarda irresponsável, marcada pela falta de conscientização de alguns responsáveis pelos animais e pela baixa efetividade da fiscalização.


“Muitas pessoas ainda veem o animal como um objeto descartável. A Lei Sansão existe, mas a fiscalização é falha e os casos de punição efetiva ainda são raros.”


Ao final da entrevista, ele deixa uma mensagem contundente para quem abandona ou ignora animais em situação de sofrimento. “O abandono é a assinatura da covardia. Ao dar as costas para um animal sofrendo na rua, você não está apenas deixando um ser indefeso para trás; está deixando ali a sua própria humanidade. Animais não sabem o que é maldade, mas sentem a dor, a fome e o medo exatamente como nós. A diferença é que eles não podem pedir ajuda.”


Que existam mais "Sérgios" no mundo e, acima de tudo, mais conscientização sobre os cuidados com os animais. Que a posse responsável se torne uma prática cada vez mais presente, guiada pelo respeito, pelo compromisso e pelo amor. Afinal, nossos companheiros de quatro patas nos oferecem carinho incondicional todos os dias e merecem receber o mesmo em troca.


Quem quiser acompanhar e contribuir com o trabalho de Sérgio Valentino pode encontrá-lo pelo Instagram no perfil @aumigosdosergio. Segundo ele, "as necessidades mais urgentes são ração, vermífugos e antipulgas, essenciais para a saúde e o bem-estar dos animais resgatados". 


Toda contribuição faz a diferença. Colabore da forma que puder e ajude a oferecer uma vida mais digna a esses amáveis peludinhos.



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