por Álvaro Perazzoli |O perfil do ciclista e do lojista de Florianópolis

alvaroA região se destaca pelo alto consumo de bicicletas e equipamentos de alto valor agregado e de uma forte cultura do uso da bike como prática esportiva

Entre os dias 24 e 25 de maio deste ano, realizamos o 27º Encontro de Negócios Cyclomagazine na cidade de Florianópolis, SC. Neste evento percebemos um mercado aquecido e com particularidades que se diferem de outras regiões do país, como por exemplo uma demanda maior de bicicletas e acessórios de alto valor agregado.
Para entender essas características entrevistamos lojistas locais e analisamos alguns aspectos demográficos e culturais da região.

Perfil dos ciclistas
Em uma primeira vista em Florianópolis nota-se um consumo diferenciado. São comuns bicicletas de alto custo circulando na cidade, sejam elas elétricas, de performance ou mesmo de uso urbano. Modelos com valores médios iniciando-se em R$ 4.000,00 são frequentemente vistos na ciclovia da Beira-Mar norte, próxima da região central.
Nas bikes de performance, curiosamente o Mountain Bike Enduro tem uma cultura muito forte, sendo um dos locais do país com mais adeptos. Há um grande número de pistas e grupos de ciclistas com muitos participantes ativos. Esporte esse no qual a média das bicicletas gira em torno de R$ 12.000,00 e consequentemente agrega acessórios e proteções de alto custo.
As bikes de Triatlhon, que facilmente ultrapassam a casa dos 30 mil reais, também estão presentes na composição do ciclismo local.
Segundo o relatório de 2018, “A economia da Bicicleta”, da Aliança Bikes e da Labmob/UFRJ, Santa Catarina é o segundo estado do país que mais importa bicicletas e peças, ficando apenas atrás de São Paulo.

Perfil das lojas
Como a grande maioria das cidades brasileiras, há lojas populares de varejo e especializadas, as bikeshops. Também existem estabelecimentos exclusivos na manutenção.
Anderson Dias é proprietário há 10 anos da Bike Force, uma bike shop na região continental de Floripa. Ele conta que iniciou o seu trabalho com o MTB Downhill e no início o consumo era fraco. “O auge foi entre os anos de 2014 e 2015. O nosso setor hoje está forte, mas estamos em meio à uma crise”.
Sua loja vende modelos entre R$ 1.500,00 e R$ 15.000 mais voltados ao segmento de performance. Segundo ele as que mais vendem estão entre dois a cinco mil reais.
“Vejo hoje aqui os perfis muito equilibrados. Há o sujeito buscando uma versão para o esporte, o ciclista querendo um modelo melhorzinho para fazer um passeio e também pessoas que buscam uma bike mais simples para irem trabalhar”, conta Anderson.
Um outro perfil é a Cicle Campeche, uma loja e oficina situada no Campeche, bairro no sul da ilha de Florianópolis. Ela é administrada por Claudete da Silva Araújo, na qual adquiriu o negócio de seu tio em 2003.
“Inicialmente atuávamos com bicicletas populares bem simples e realizávamos mais serviços de manutenção. Em função da pouca mão de obra mecânica fui migrando aos poucos também para a venda”, declara a proprietária Claudete.
A Cicle Campeche tem um espaço bem amplo e um layout ambientado ao mercado popular. A mecânica e a locação são responsáveis pela maior parte do faturamento. Na loja nota-se uma ligeira transição, como uma bike de carbono para venda na casa dos R$ 8.000,00 junto com outros modelos com valores entre os R$ 900,00 e R$ 2.000,00.
“Fui em uma feira de bicicletas agora em maio a convite de um fornecedor. Fiquei apaixonada. Estou cheia de cartões, com preço melhor e diversificando bastante meus produtos”, fala a proprietária da Cicle Campeche em referência ao 27º Encontro de Negócios Cyclomagazine.
Ela diz que o fato de ser nova na área, de sofrer preconceito do setor por ser uma gestora mulher e não ter o conhecimento a obrigava comprar exclusivamente de fornecedores. “Percebi na feira o potencial que temos de comprar diretamente com as empresas e isso mudou minha forma de negócio. Hoje consigo um preço melhor e repasso ao consumidor final. Isso nos deixa mais competitivos”.
“Sinto um grande preconceito pelo fato da loja ser pequena e estar situada no sul da ilha. Os representantes e até mesmo fornecedores não vêm nos visitar. Tenho muitas vezes que pedir e dizer que tenho CNPJ e 16 anos de mercado”, conta Claudete.
João Paulo Ramos é proprietário da Loja Ciclovil, fundada em 2007 e situada na parte continental de Florianópolis. A loja atuou na mecânica durante 15 anos e nos último sete migrou para a venda. Atualmente trabalham com bicicletas de alta performance e são uma das lojas autorizadas da Specialized na ilha.
A manutenção da loja hoje se divide em 50% ao mercado popular e 50% ao setor especializado. Na venda 70% é direcionada ao consumo de bicicletas e acessórios de alto padrão.
João conta que a manutenção começou em uma oportunidade quando seu pai se viu desempregado. “Meu pai usava a bike como meio de transporte ao trabalho. Todo sábado ele fazia a desmontagem e manutenção comigo para não ficar na mão durante a semana”.
“Eu tinha 12 anos e fiz uma manutenção na bicicleta do meu vizinho. No outro dia veio outro vizinho e mais outro e assim tivemos que alugar a primeira sala comercial e começar a nossa história”, revela o lojista.
Assim como Claudete, João também fala que as feiras foram um fator decisivo para a transformação do seu negócio.
“Ganhei uma passagem aérea de um cliente para uma feira em São Paulo. Eu não sabia o que fazer, não tinha nenhum contato com internet. Fui lá e postei algumas fotos em uma rede social. Após isso o pessoal ganhou confiança e começou vir na loja”, lembra João Paulo Ramos.
O relatório “A economia da Bicicleta” também revela que Santa Catarina é o estado com maior valor salarial médio pago aos profissionais do varejo, em torno de R$ 1.540,00. Na amostragem da pesquisa o estado ocupa a segunda posição nacional em número de oficinas e a sétima classificação no ranking de lojas especializadas.

Qual o segredo?
A topografia da região aliada a paisagens exuberantes contemplam tanto o ciclista que gosta de pedalar em lugares planos e também o mountain biker, devido às vastas opções de trilhas com altos níveis de altimetria.
“Aqui tem a questão da segurança. Muitos clientes que antes moravam no sudeste contam que saem para pedais mais longos sem preocupação, coisa que não conseguiam onde moravam. Sem contar as belezas naturais inacreditáveis nos caminhos que andamos”, analisa Anderson Dias.
O Ironman Floripa também é um promotor do triatlhon na região, assim como o favorecimento do próprio lugar para a prática do ciclismo, corrida e natação.
Floripa, segundo o IBGE, é a 4a cidade do Brasil com maior renda domiciliar per capita em 2018. Perdendo apenas para Brasília, São Paulo e Rio Grande do Sul. O IDH (índice de desenvolvimento humano) é também um dos maiores do país. Está em terceira no ranking como cidade e em primeiro como capital.
Para João, uma grande parcela do consumidor local tem um perfil igual ou superior às grandes cidades brasileiras. Ele equipara ao de regiões como Minas Gerais e São Paulo.
“Temos aqui muitos funcionários públicos e um grande número de pessoas com ensino superior. Isso significa uma garantia salarial, um poder aquisitivo maior e um nível de instrução mais altos e consequentemente mais conhecimento sobre bikes”, analisa o proprietário da loja Ciclovil.

O que pode ser melhorado?
Quando questionado sobre o que falta para melhorar o consumo de bikes na ilha, Anderson Dias diz faltar infraestrutura e planejamento de mobilidade cicloviária na ilha.
“Apesar de termos ciclovias nas Beira-Mar, acho que praticamente só temos ali. Elas não se interligam com as outras e há regiões sem nenhuma. Isso nos obriga a disputar espaço com carros ou mesmo entrar na contramão para acessá-las”, conta Anderson Dias, dono da loja Bike Force e ciclista.
Claudete, proprietária da loja Cicle Campeche, também concorda que falta estrutura para ciclistas. “Percebo aqui na ilha que o uso da bicicleta teve um crescimento bem grande, mas não vejo ele abranger a região sul da ilha”.
João Paulo Ramos também é categórico. “Infraestrutura é o que falta para crescermos mais. O ciclista que usa a bike no dia a dia tem um sério problema para se locomover aqui”.
“Se houvesse mais planejamento cicloviário teríamos mais consumo de bicicletas para o transporte e geraríamos ainda mais negócios”, finaliza João.

Cyclo 232

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