Artigo: Síndrome de burnout, fadiga por compaixão, exercício da veterinária. E aí?

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antonietaDra. Antonieta M. C. Zabeu | Médica Veterinária – CRMV/SP 11024

De acordo com o CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) existem mais de 200 cursos de medicina veterinária regular e reconhecidas no território nacional. Boa parte delas concentradas nas regiões Sudeste e Sul do país. As atividades do Médico Veterinário abrangem várias áreas da saúde; são capacitados para atuar na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças dos animais e das zoonoses (doenças entre animais e humanos); produção dos alimentos de origem animal; produção de vacinas e medicamentos de uso animal; entre outras atividades direta e indiretamente ligadas ao mercado pet e do agronegócio.

São mais de 6 mil novos profissionais no mercado veterinário a cada ano. Em contraste com esta realidade, o setor econômico ligado ao agronegócio, agropecuária e animais de companhia apresenta-se em franco crescimento; sendo âncora da economia brasileira. O (IBGE) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou que o PIB da agropecuária cresceu 13% em 2017 ante 2016, o melhor resultado da série histórica iniciada em 1996. De acordo com a Abinpet – Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação – indicam que, em 2017, o mercado pet brasileiro ocupou o terceiro lugar em faturamento no mundo, equiparando-se no ranking com a Alemanha e Reino Unido; registrou um crescimento real de faturamento de 4,95% em relação ao ano de 2016. Este crescimento foi possível graças a veterinários, zootecnistas, agrônomos e outros profissionais dá área, na busca incessante de novas pesquisas, tecnologias e aprimoramento das atividades.

Pois bem, temos atualmente profissionais capacitados para a demanda de um mercado em franco crescimento. Mas, além da formação técnica, estão sendo formandos profissionais capacitados para lidar com a pressão deste mercado em crescimento???

O veterinário é um profissional de saúde que, embora tenha um papel relevante para a saúde dos animais e humanos, ainda tem um reconhecimento secundário na sociedade, embora nos últimos anos os animais alcançaram o status semelhante ao dos humanos, sendo muitas vezes absorvidos como membro da família. A responsabilidade do veterinário em tratar destes animais cria uma enorme pressão, pois além de proporcionar a melhora ao paciente tem que lidar com a expectativa dos seus clientes humanos; os tutores.

Soma-se ainda a baixa remuneração salarial, a constante necessidade de atualização e estudos, exigência de várias horas de trabalho, muitas vezes em condições exíguas, impactando diretamente na vida pessoal deste profissional.

Em pesquisa recente no Reino Unido mostrou que a incidência de suicídio entre veterinários é quatro vezes maior que em médicos e dentistas, e são comumente acometidos pela síndrome de Burnout, pela fadiga por compaixão e a depressão generalizada. Em todos os casos, a depressão está presente e seus sintomas se confundem entre si.

Síndrome de Burnout; do inglês burn out = esgotamento, assim denominada pelo psicanalista alemão Freudenberger em 1970; caracteriza-se quando a autoestima do indivíduo é medida pela sua capacidade de realização e sucesso. Burnout está ligada com as atividades profissionais e organizacionais que caminham junto das atividades do veterinário, que além do exercício da profissão propriamente dita tem que cuidar do seu “negócio”, aumentando assim a pressão diária.

Fadiga por compaixão, também chamado de estresse traumático secundário, é caracterizada por uma grande exaustão física, emocional, social e espiritual, decorrente do estresse causado por uma excessiva exposição à dor, trauma e sofrimento do outro (indivíduo animal ou humano). O problema foi inicialmente descrito em 1950 por um grupo de enfermeiras.
Alguns sintomas mais evidentes destes transtornos psicológicos são:

Exaustão, irritabilidade, raiva, crescente ansiedade, aumento do uso de drogas e álcool, medo de trabalhar com determinados clientes, sentimento de incapacidade e impotência, dificuldade em separar a vida pessoal da profissional, absentismo, dificuldade em tomar decisões e cuidar dos pacientes, problemas nas relações pessoais.
As razões principais, pela qual os profissionais da área de saúde como veterinários, enfermeiros e outros, abandonam o campo profissional é a combinação da síndrome de Burnout e Fadiga por compaixão.

Veterinários são pouco treinados em questões psicológicas para lidar com as emoções de seus clientes humanos. É pouco treinado nas questões administrativas de qualquer atividade fora das técnicas e práticas veterinárias.

Diagnosticar estes transtornos fica mais fácil quando o veterinário ainda tem a percepção que algo está indo mal pessoalmente com ele. O tratamento incluí psicoterapia e uso de medicamentos antidepressivos e ansiolítica. A prevenção baseia-se em atividades físicas diárias, atividades distintas do exercício profissional, alimentação adequada e relações pessoais saudáveis, estabelecer limites diários de horas de trabalho, delegar e dividir tarefas.

As companhias e organizações veterinárias podem ofertar workshops de desenvolvimento profissional para os veterinários, com o objetivo de melhorar as competências emocionais e desenvolver a resiliência.

Fique de olho. “Mente sã em um corpo são, é uma descrição curta, mas completa de uma condição feliz neste mundo. Aquele que tem ambos, tem muito pouco mais a desejar; e aquele que deseja ambos, será um pouco melhor em tudo” – John A. Locke.

Edição 111 | Petmagazine

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